Foco: linguagem narrativa

Joanna Ramos

Nossa querida Joanna Ramos foi entrevistada nas lives de Instagram pelo projeto FotoLab. Ela falou lindamente sobre o trabalho de foquista e sobre como o foco é mais uma ferramenta que serve à narrativa dos filmes. Foi uma aula deliciosa!

Segue aqui o texto que a Joanna escreveu com o conteúdo que foi falado durante a entrevista.

Foco como linguagem narrativa

Surgimento do foco seletivo

As primeiras imagens dos filmes de ficção da história do cinema são marcadas por uma estética muito próxima ao teatro clássico. Atores, atrizes e cenário são enquadrados por inteiro e a câmera atua como plateia, com todas as ações de uma cena acontecendo diante dela. Me atrevo a dizer que os enquadramentos eram muito próximos a representação da última ceia, executada pelo pintor renascentista Leonardo da Vinci, onde Jesus e seus apóstolos estão dispostos na tela de forma com que todas as suas ações e rostos estejam ali inteiros para o observador.

As objetivas usadas naquela época atendiam, satisfatoriamente, a essa estética. Elas possuíam uma profundidade de campo grande, ou seja, permitiam que houvesse foco em todo o espaço onde o olhar do espectador percorresse. A exemplo disso temos os filmes de George Méliès, onde há foco em todo o quadro.

Por outro lado, o cinema soviético da década de vinte e trinta do século passado, na sua genialidade, para destacar umas ações de outras, mergulhava na “montagem paralela” e eram filmados incontáveis planos.

Quando surgiram as primeiras películas pancromáticas, filmes em preto e branco, sensíveis a todos os comprimentos de onda da luz visível, que contavam com ISO menor, se tornou necessário o uso de objetivas com maior abertura de diafragma, o que implicava em menos profundidade de campo.

Em consequência desta “limitação técnica” todo o processo de representação e a concepção cinematográfica usados anteriormente foram ressignificados. Até então, a pouca profundidade de campo e o desfoque pertenciam apenas à fotografia estática.

Surge então no cinema o foco seletivo.

Desde então, o foco seletivo passou a ser explorado pelos diretores de fotografia como possibilidade de estética e de linguagem. Surge uma nova maneira de se contar uma história, permitindo destacar uma ação específica em um mesmo plano.

O filme “Cidadão Kane” (1941) de Orson Welles foi precursor disso, deixando em seu legado essa ferramenta narrativa.

Foquista

O cinema é um trabalho coletivo que funciona como uma engrenagem de diversos departamentos, entre eles temos, por exemplo, o de Direção, de Arte, de Som, de Produção e de Câmera. Neste último podemos encontrar o foquista/1º assistente de câmera.

Mas afinal, o que é o foquista?

Bem, em termos técnicos, na hierarquia, é o chefe do departamento de câmera. Pessoa que tem domínio das objetivas, dos filtros, da câmera e de todo o equipamento e que cumpre as demandas da Direção de Fotografia no que diz respeito ao foco.

Há quem acredite que o trabalho do foquista seja meramente técnico. Mas para além da trena (a melhor amiga do foquista), das marcações, dos métodos e do domínio dos manuais, o foquista guia olhares. Não basta ter boa noção das distâncias, também é preciso ter feeling. O foco ou o desfoque tem intenção, ritmo, significado, tempo e sentimento.

Feeling do foquista

O ponto inicial é ter pleno conhecimento do roteiro, dos diálogos, de quem protagoniza um plano, das posições, das movimentações de câmera e das ações que acontecem nas cenas. É muito importante dialogar com a Direção e a Direção de Fotografia quanto ao foco. Dessas conversas surgem referências importantes que guiarão o trabalho do foquista.

O exercício de observação é fundamental para o foco. Deve-se estudar a movimentação dos atores e, quando falo em movimentação, não me refiro somente ao andar (que implica distâncias consideráveis), mas àquelas sutis, como trejeitos, gestuais e inclinações do corpo.

O foco atua com o ator nos seus tempos e respiros, caminha com ele por toda a mise-en-scène. Ser foquista implica em ser intuitivo, em prever ações e tempos o que é construído através da observação e das nossas próprias vivências.

Quando filmamos, por mais que tenhamos uma prévia do que virá a acontecer dentro de uma ficção, sempre devemos contar com o fator do improviso e do inesperado. A cena é viva e o foquista deve ter consciência disso.

Falar de foco é também falar de tempo.

Como tornar fluida uma passagem de foco de um ponto ao outro? Quando não ter foco? Quando mudar o foco? Qual a velocidade desta passagem? É suave ou é brusca?

Com o domínio das técnicas, as respostas estarão dentro do roteiro, nas intensidades das ações, dos diálogos e no ritmo de cada cena. Acredito que o foco deve acompanhar o fluxo do pensamento e do nosso próprio olhar sobre o cotidiano. Nossas experiências sensoriais são guias para essa arte.

Um tanto se fala em foco, mas e o desfoque?

Costumo pensar que na linguagem cinematográfica o desfoque está para a imagem, assim como o silêncio está para som. O silêncio e o desfoque falam. Ambos têm importância e potência narrativa. O desfoque é textura, é plástico, é o olhar míope que intriga e se abre a deduções. Ele pode atuar tanto como um recurso para linguagem onírica ou pode ser como aquela “meia palavra que para um bom entendedor basta” ou um borrão que esconde segredos.

Ele permite que o cérebro agrupe um emaranhado de formas, de cores e de brilhos e que construa imaginários. Ele é o sentimento do mareio, do despertar, do não acreditar, da pressa. Uma imagem desfocada trás organicidade.

Na linguagem documental o foco caminha com a situação, mais vivo que nunca. Sempre no risco do inesperado. Dependendo do documentário, não é possível fazer marcações. A câmera e o foco vão para onde se julga ser importante. Atuam com nossos sentidos, indo para onde nos chama atenção, para o que deve ser contado dentro da temática.

Em muitos contextos o foco não é preciso. Contudo, nem sempre isso diminui a potência daquela imagem ou ação. A busca do foco em uma situação inesperada trás dramaticidade, emoção e sentimento. Ele está vivo, assim como a câmera, ele é extensão do nosso corpo, do olhar e do coração.

Em razão de tudo que foi colocado, insisto que ser foquista não é somente ter domínio da técnica, mas é também saber domar olhares, é saber usar nitidez e desfoque para contar uma história. É se entregar e ter em mente que foco não é só matemática das distâncias, mas também é poesia.

Por Joanna Ramos

Comentários (2)

  1. IBeatriz 2 meses atrás

    Obrigada pelo aprendizado!

    • IBeatriz 2 meses atrás

      ….e pela poesia!

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*